quarta-feira, 12 de novembro de 2014

PRODUÇÃO ECOLÓGICA DE PRANCHAS DE SURFE: UTOPIA OU REALIDADE?

DROPANDO A ONDA VERDE...


Disseminando a responsabilidade ecológica...
É notável como as pessoas manifestam percepções totalmente díspares no tempo e no espaço em determinadas situações. Se por um lado a célebre Rachel Carson, autora do clássico Silent Spring, se indignou veementemente em meados da década de 60, contra o uso e o descarte indiscriminado de produtos químicos no ambiente, todavia seu hercúleo esforço não foi em vão, sendo o estopim para o surgimento e a proliferação do movimento ecológico mundial, que foi marcado principalmente pelo início do controle ambiental, a fiscalização e a punição das atividades que geram passivos ambientais.

Cavalete com resina acumulada.
Por outro lado parece que nós surfistas não nos importamos muito com a séria poluição proveniente da produção de pranchas de surfe em pleno século XXI. É um paradoxo, levando-se em consideração que praticamos nosso esporte em meio natural, que a geração de resíduos, gases e efluentes tóxicos, inflamáveis, carcinogênicos e perfurocortantes são exacerbadas e considerando-se que a tecnologia contemporânea já disponibiliza alternativas de produção mais limpa, controle da poluição, medicina do trabalho e reciclagem dos resíduos dos processos produtivos e dos decorrentes do descarte de pranchas obsoletas, para minimizar impactos ambientais e à saúde pública.

Mosaico de resíduos.

A indústria de pranchas de surfe no Brasil e no mundo vem há mais de 60 anos descarregando grandes quantidades de dejetos químicos em lixões ou aterros simples, sem qualquer tipo de tratamento ambiental, poluindo efetivamente o solo, a atmosfera e os corpos aquáticos, além do sério problema de saúde ocupacional, em função de muitos trabalhadores não utilizarem adequados equipamentos de proteção individual (EPI).


O cenário é sério, mas existem indústrias muito mais poluentes, que geram resíduos similares em quantidades exponencialmente maiores. Em 2003 o Projeto Marbras et Mundi realizou um estudo comparativo da geração de poliuretano residual de uma empresa multinacional que produz refrigeradores, contra o descarte do mesmo produto feito pelas fábricas de pranchas da região sul do Brasil. O resultado foi surpreendente, em apenas um mês a geração de resíduos da indústria de refrigeradores se equiparou ao resultado estimado anual de todas as oficinas de pranchas dos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Rede de esgoto doméstico recebendo efluente.

 “Afinal a escolha é nossa... Não podemos mais aceitar os conselhos daqueles que dizem que deveríamos atulhar nosso mundo com produtos químicos venenosos; temos que olhar à nossa volta e procurar um novo caminho”. (RACHEL CARSON, 1962).

ANALISANDO AS CONDIÇÕES.

Os resíduos, emissões e efluentes gerados na produção de pranchas de surfe são classificados como perigosos pela NBR 10.004 (ABNT). Possuem alto valor agregado e prazos de decomposição elevadíssimos. No processo de fabricação deste produto foi identificada a necessidade emergente de se realizar uma auditoria e criar um sistema de gestão ambiental para estas unidades, visando reduzir o consumo de água, energia elétrica e da geração dos resíduos, além da recuperação dos dejetos não elimináveis.

Laminação.
Foi observado que esta atividade produtiva pode ser redimensionada com o objetivo de minimizar impactos ambientais e à saúde pública e maximizar recursos financeiros. Como mencionado, nas oficinas, a maioria dos trabalhadores não usam os equipamentos de proteção individuais adequados e isto se transformou em um sério problema de insalubridade no ambiente de trabalho, pois o risco de malefícios para o organismo dos mesmos é uma realidade e já foram registrados casos de câncer e enfisemas pulmonares em indivíduos sujeitos a intensa exposição. As descargas não são recuperadas e sim enterradas em lixões ou aterros simples, que não possuem recursos de engenharia para tratamento ambiental como os aterros industriais, portanto estes materiais percolam no solo poluindo mananciais subterrâneos, além de oferecerem risco de incêndio na área.

Para a fabricação de pranchas de surfe, independentemente de serem produzidas com resina de poliéster e espuma de poliuretano (PU) ou resina epóxi com espuma de poliestireno expandido (EPS), diversos processos impactantes são empregados e em cada um deles uma gama de descargas nocivas são geradas. Se por um lado o EPS é menos poluente que o PU, por outro a poliamida (catalisador da resina epóxi) é uma substância química muito maléfica para o ambiente e para quem a manipula.


A cada pranchinha produzida, cerca de 5 a 7 Kg de resíduos são descartados e quando se trata do pranchão, este valor sofre um acréscimo significativo. Estabelecendo um referencial médio, vamos projetar um descarte de 7 Kg por prancha produzida, independente da sua dimensão. O montante do descarte estimado para representar a atual flotilha de pranchas mundial (cerca de 50 milhões), corresponde a 350 mil toneladas de resíduos que foram descarregados sem o mínimo tratamento ou controle ambiental.


E se projetarmos que cada surfista, numa média progressiva e histórica encomendou 30 pranchas ao longo de sua vida, identificamos a alarmante estimativa que 10 milhões de toneladas de resíduos tóxicos, inflamáveis, carcinogênicos e perfurocortantes foram enterrados nos últimos 60 anos, para suprir e manter a nossa atividade desportiva.

O esporte vem crescendo de forma exponencial e aumentando cada vez mais a escala da geração de dejetos químicos nos processos produtivos e também no pós-consumo.

Lixo de oficina misturado e destinado pela coleta domiciliar.
Hoje em dia existem biopolímeros que diminuem os impactos, porém os plugs resultantes ainda não foram suficientemente desenvolvidos para manter a mesma 'conformidade' do PU com tolueno diisocianato (TDI), porque no uso da plaina não propicia um desbaste homogêneo. O poliuretano e o isopor são recicláveis, mas os métodos são específicos e demandam um eficiente e complexo sistema de logística reversa para se estabelecerem, sendo processos que não permitem improvisações.

As pranchas com fibras vegetais (bambu, linho, agave e balsa), ideologicamente seriam ideais, pois parte de sua descarga pode ser compostada, mas para um pesquisador atento, novas variáveis despertam. No aspecto do desempenho, essas pranchas nunca conseguiram se equiparar às tradicionais com PU e também as produzidas com EPS. Vislumbro ainda, mais dois aspectos inquestionáveis: o primeiro é o plano de manejo sustentável das espécies vegetais, que deveria ter sido implantado há pelo menos 10 anos e não foi realizado, e pelo que me consta, não existe nenhum manejo em voga de quase todas as fibras utilizadas, a não ser o bambu, que cresce naturalmente como mato. O outro aspecto é diretamente econômico e indiretamente ecológico e se chama escala de produção. Imagina se de uma hora para outra a nação mundial do surfe se contamina com o ‘vírus verde’ e resolve surfar com pranchas de fibras naturais. Em alguns anos não teríamos mais espécies e a demanda de milhões de surfistas não seria satisfeita.

É inegável que existe uma cultura estabelecida de desperdício e consumo desenfreado e desnecessário em nossa sociedade, seja na indústria do surfe como em qualquer outra, que trata a Natureza como um estoque interminável de matéria-prima, um saco sem fundo de recepção de todas as descargas, independentemente do impacto que causam para o ambiente e gerações futuras e que também não pondera a exiguidade dos recursos não renováveis. Infelizmente a variável econômica é preponderante em nosso mundo.



PROJETO MARBRAS ET MUNDI

A missão do projeto consiste basicamente em implementar nas fábricas de pranchas de surfe uma metodologia para minimizar o consumo de água, energia elétrica e a geração dos resíduos nos seus processos produtivos. Estabelecer também um sistema de medicina ocupacional e controle da poluição, propiciando o tratamento ambiental das emissões nocivas, das descargas de efluentes e a recuperação dos resíduos sólidos não elimináveis nos processos, além de propor alternativas de recuperação das pranchas obsoletas.

SISTEMA DE GESTÃO AMBIENTAL

A criação de produtos provenientes do lixo poderá ‘fechar o circuito’ da cadeia produtiva e econômica de uma empresa, adotando-se uma visão sistêmica de produção para avaliar o conjunto das entradas e saídas de todos os processos e subprocessos, com o objetivo de avaliar as consequências ecológicas, econômicas e sociais, pois o impacto ambiental não é determinado por um produto e menos ainda por um material que o compõe, mas sim pelo conjunto dos processos durante todo o seu ciclo de vida.

As organizações usam o conjunto de normas NBR ISO 14000, para prover diretrizes na implantação de um sistema de gestão ambiental (SGA), que tem como meta primordial integrar harmonicamente os seus objetivos com suas variáveis ambientais e econômicas.

Para tal, são delineados parâmetros para que o SGA capacite a empresa a desenvolver e implementar a sua política ambiental, em consonância com a legislação vigente, traçando comparativos entre os processos produtivos e os aspectos ambientais.

Em função da necessidade de se realizar uma investigação individualizada e pormenorizada em uma fábrica de pranchas determinada, para avaliar e reduzir o consumo excessivo de água e de energia elétrica, assim como analisar os gargalos já identificados no que tange a medicina do trabalho, serão apresentados neste artigo, somente alternativas de mitigação dos impactos decorrentes dos processos produtivos.

AUDITORIA AMBIENTAL NA PRODUÇÃO DE PRANCHAS DE SURFE

Foi realizada uma auditoria ambiental numa fábrica de pranchas em Florianópolis que emprega métodos de produção e de descarte de resíduos usualmente praticados nesta indústria. A base de estudos foi feita com a metodologia PU com resina de poliéster, mas os sistemas de mitigação apresentados também são adequáveis para a produção com EPS e resina epóxi. Foram coletados dados qualitativos e quantitativos que subsidiaram um sistema preliminar de gestão ambiental para a produção de pranchas.

Neste trabalho preliminar será apresentada a descrição dos processos produtivos, a quantificação das entradas e saídas desta atividade, os principais gargalos e a proposição de um conjunto de ações que viabiliza o controle da poluição no ambiente de trabalho. 

Na unidade pesquisada são produzidas em média cem pranchas de surfe por mês, que conta com cinco trabalhadores. Foram analisados e avaliados os processos produtivos de shape, pintura, laminação e acabamento. Existem inúmeros métodos produtivos e dimensões de pranchas, mas para este estudo foram mensuradas cinco pranchas de 6 pés, feitas com PU, revestidas com resina de poliéster e fibra de vidro. Os resultados foram apresentados a partir do cálculo da média aritmética dos valores identificados.

DESCRIÇÃO SUCINTA DOS PROCESSOS PRODUTIVOS

O PU ou EPS quando sofrem a ação de uma plaina utilizada para dar a forma final da prancha, geram particulados em suspensão, elementos tóxicos para a saúde humana e do ambiente. Os processos produtivos não dispõem de um sistema de captação e controle destes poluentes para deposição final em um aterro industrial, que detém recursos técnicos para evitar a contaminação do  ambiente.

video


Para a produção de pranchas de surfe, diversos subprocessos são empregados. O bloco de PU (plug) já vem de fábrica pré-moldado. O shaper inicialmente projeta e corta o out-line.

Em seguida, desbasta o plug com plaina elétrica, lixa manualmente e/ou com lixadeira elétrica e também usa o surform, para reparar eventuais falhas geradas.


Shape: Jefferson Lopes - Spider surfboards
Na sequencia o shape é pintado com tinta vinílica aspirada e após a secagem é revestido com fibra de vidro e uma mistura de resina de poliéster, peróxido de metil-etila (catalisador) nas duas primeiras camadas (glass e hot coat) e na terceira, (gloss) se incorporam à mistura, monômero de estireno, cobalto (acelerador) e parafina bruta, que têm a função de proporcionar mais transparência e diluição da resina, com o propósito de obter um melhor acabamento. As quilhas são produzidas separadamente com um compósito semelhante ao do revestimento inicial.

RESULTADOS ALCANÇADOS

Expandindo uma blenda de PU reciclado 
III Fórum Internacional - Praia do Forte, Bahia
Após levantamento e caracterização dos aspectos ambientais de cada processo produtivo da fabricação de pranchas de surfe, serão apresentadas um conjunto de ações para mitigar os impactos ambientais identificados.


O percentual de desperdício mensurado nesta auditoria foi em torno de 45%, o que representa uma evolução nos processos e no emprego de matéria-prima, pois na primeira mensuração realizada em 1999, o índice foi cerca de 70%, empregando 10.088g de matérias primas para um produto final de 3.017g. Isto ocorreu porque as fábricas de blocos dimensionaram novos plugs, mais justos que proporcionam menos descargas de material. Já nas oficinas os trabalhadores se empenharam para não desperdiçar as matérias-primas.


FLUXOGRAMA DOS PROCESSOS PRODUTIVOS E BALANÇO DE MASSA


Legenda:

SQ1: peróxido de metil-etila (catalisador)
SQ2: peróxido de metil-etila + monômero de estireno + parafina + cobalto (acelerador)
SQ3: peróxido de metil-etila + monômero de estireno
Deck: superfície da prancha
Bottom: fundo da prancha
Processos complementares: aplicação das quilhas e copinho do leash 
Outros insumos: luvas, lixas e fitas crepe


O fluxograma acima mapeia todo o processo produtivo. Na margem esquerda são relacionados os inputs. No centro são apresentados os subprocessos, com as respectivas cargas empregadas e na margem direita são indicados os outputs, que são as descargas dos dejetos gerados em cada etapa, assim como a progressão do peso da prancha.

CARACTERÍSTICAS DOS IMPACTOS NA SALA DE SHAPE

Os principais impactos gerados no shape das pranchas são aparas e cavacos descartados no corte do out-line; flocos e partículas de PU, provenientes do desbaste da plaina e da lixadeira e também o ruído das máquinas, acima dos limites estabelecidos pelas normas.

Diagrama do controle da poluição na sala de shape


Criação: Alexandre Deschamps Schimidt.


Para captar as partículas e o pó suspensos, adapta-se à plaina um tubo flexível, ligado a um sistema de exaustão que os coletam para um silo de resíduos. Os dejetos sólidos são captados separadamente e a sala necessita de isolamento acústico. Os resíduos sólidos estocados demandam uma destinação ecologicamente responsável ou reciclagem.


CARACTERÍSTICAS DOS IMPACTOS NA SALA DE LAMINAÇÃO

No subprocesso de laminação e produção das quilhas, são gerados resíduos sólidos e particulados dos compósitos das misturas empregadas e também emissões de gases tóxicos com fortes odores que são lançados no ambiente e que requerem um sistema de captação e encapsulamento desses poluentes. Também são geradas sobras de resina virgem e retalhos de fibras de vidro, além de fitas crepe e recipientes contaminados.

Diagrama do controle da poluição na sala de laminação



Criação: Alexandre Deschamps Schimidt.


As emissões são exauridas para um sistema de filtragem, que minimiza os impactos no ambiente interno e externo. Os resíduos da resina não curada poderão ser reutilizados no processo ou em novos processos, se utilizando de um sistema de drenagem para coletar o material excedente e canalizá-lo para um molde, que poderá ser um objeto de arte.

A resina residual curada poderá ser pulverizada e utilizada como carga na produção de piscinas ou caixas d’água. As sobras de tecido de fibra de vidro podem ser reutilizadas em pequenos reparos. O ideal é utilizar recipientes metálicos nos processos produtivos, que depois de serem contaminados poderão ser raspados, limpos e reutilizados.

Uma alternativa para recuperar a resina virgem residual é drená-la para uma forma determinada com as bordas vedadas, para produzir paralelamente uma mesa ou balcão.

CARACTERÍSTICAS DOS IMPACTOS NA SALA DE ACABAMENTO

Na etapa de lixa seca são liberadas partículas de compósito de resina e fibra de vidro que se dispersam pelo ambiente. Na fase de lixa d’água são gerados efluentes tóxicos, que são descarregados diretamente na rede de esgoto doméstico, que não oferece tratamento e posteriormente contaminando os corpos aquáticos. São descartadas latas de tintas, fitas crepe, lixas usadas e potes de massa de polimento contaminados. Os ruídos das lixadeiras e politrizes também extrapolam aos parâmetros das normas vigentes.

Diagrama do controle da poluição na sala de acabamento


Criação: Alexandre Deschamps Schimidt.

Este subprocesso demanda a instalação de um sistema de captação das partículas descarregadas e também de um processo de bombeamento para recircular a água usada.

Também é necessária a implantação de um sistema de decantação e tratamento dos efluentes, anterior ao sistema da rede pública de esgoto. Os materiais sólidos deverão ser separados e quando possível, recuperados ou encaminhados para um aterro industrial. A sala necessita de isolamento acústico. Interligando o filtro da sala de revestimento com o da sala de pintura, para captar e filtrar todas as emissões e partículas serão minimizados custos e proporcionará a integração das atividades mitigadoras.

É primordial a instalação de um silo de resíduos, com compartimentos específicos e separados para cada tipo de descarga, para deposição final ou processos de reciclagem.
Detalhes dos processos produtivos não foram abordados no artigo, pela limitação do espaço e assim foi priorizada a mitigação dos impactos ambientais mais contundentes.

UMA LUZ NO FIM DO TUBO...

Este estudo demanda a criação de um processo de certificação ambiental nas fábricas de pranchas de surfe, com prerrogativas de controle da poluição, medicina ocupacional, redução na geração de resíduos, minimização do consumo do uso de água e energia elétrica nos processos produtivos, além da recuperação dos resíduos não elimináveis.

Os resíduos poderão ser empregados como substituto parcial de agregados, na fabricação de artefatos de concreto, incorporados com resinas, após pulverização, para a produção de um bloco de poliuretano recuperado, que poderá ser usado na produção de novas pranchas de surfe ou em painéis para isolamento termoacústico, por meio de algumas tecnologias já validadas e viabilizadas pelo Projeto Marbras et Mundi.
Paulão surfando no quintal. Foto: Juliana Casari

O produto certificado apresentará um diferencial de mercado que poderá ser explorado por uma campanha de marketing ecológico e seu desenvolvimento e progresso será alavancado pela sensibilização dos multiplicadores.

Empresas públicas e privadas, instituições técnico-científicas, mídia, organismos ambientais, consumidores, agências de fomento e outros atores poderão formar uma rede associativa para empoderar a responsabilidade ecológica nesta indústria e com o carisma que o surfe desperta na sociedade poderá viabilizar uma mobilização comunitária e participativa, para incentivar o consumo ecologicamente mais responsável e a adoção de sistemas produtivos menos impactantes por indústrias de outros setores.

E após anos e anos de pesquisas é indubitável concluir que o melhor caminho para a indústria do surfe é a criação de polos industriais, nos moldes da Ecologia Industrial, onde diversos fabricantes e/ou distribuidores de insumos, assim como oficinas de pranchas e uma unidade satélite de recuperação e tratamento de resíduos estariam integrados em uma mesma planta industrial. Os benefícios são inúmeros, pois este modelo permite uma economia substancial da água e da energia elétrica, utilizadas nos processos, a redução de despesas operacionais de logística, transporte e distribuição de produtos, compra cooperativada de suprimentos e diminutos custos internalizados do passivo ambiental.


O cenário é este e a minha busca atual como pesquisador e ativista da responsabilidade ecológica na indústria do surfe, sem ignorar os trabalhos já desenvolvidos, é a de perseguir e identificar a 'quartaessência', conceito cunhado para denotar um alternativo sistema produtivo que envolva novos materiais, distintos dos que estão em voga (PU, EPS e fibras vegetais) utilizando insumos sintéticos, biodegradáveis e com propriedades que superarão o desempenho e a conformidade das pranchas de PU e EPS, sem gerar impactos nocivos para o ambiente e para a saúde pública. Utopia ou realidade?

Paulo Eduardo Antunes: Coordenador do Projeto Marbras et Mundi
marbrasetmundi@gmail.com


Agradecimentos especiais:
Alexandre Schimidt
Antônio Mazzoco
Carla Circenis

Dênis Abessa
Douglas Ladik Antunes
Gabriel Alexandre Modenesi

Jefferson Lopes
Mário César de Luca Holzmann

Professora Sandra Sulamita Nahas Baasch
Professor Marcos Lopes Dias
Reiginaldo Ferreira


domingo, 1 de maio de 2011

Marbras Et Mundi


Trabalhando há 10 anos pela sustentabilidade na indústria do surfe...

O embrião do projeto foi iniciado em 1989, quando trabalhei na Clark Foam e após alguns ensaios preliminares sugeri que fosse coletado o pó residual de poliuretano nas fábricas para ser empregado na produção de blocos genéricos, na época mal se reciclava papel e a idéia foi considerada surrealista e não seguiu seu curso. Dez anos depois, em janeiro de 1999 a Surfer publicou uma reportagem denominada “Dirty Deeds Done Dirt Cheap”, onde entrevistava Greg Loehr, um shaper californiano inovador e pioneiro na busca de métodos de produção mais responsáveis, sob o prisma ecológico. No mês seguinte o jornalista Jonas Furtado lançou na Fluir a matéria “Desperdício nas Oficinas”, que fez uma adequação da matéria anterior para a realidade brasileira.
Essas intervenções jornalísticas nos motivaram a resgatar o projeto iniciado na Clark Foam, assim ele foi atualizado para o momento presente, começando como uma proposta de reciclagem dos resíduos gerados na fabricação de pranchas de surfe e evoluindo durante esses 10 anos de trabalho, para a construção e formatação de um modelo de produção sustentável voltado para a produção de pranchas, que pode ser resumido em algumas etapas distintas, como: gestão ambiental, medicina ocupacional, controle da poluição e tratamento ambiental das descargas não elimináveis, através de processos de recuperação dos resíduos sólidos, tratamento dos particulados, saneamento das emissões e controle dos efluentes, ou seja transformar um sistema aberto e poluente, num fechado e com efetivo controle ambiental nos processos produtivos, com o objetivo de lançar no mercado uma prancha certificada.
Em 1985 quando fabricava pranchas, me incomodei bastante com os resíduos gerados, aí ao invés de jogá-los fora fui estocando-os num quartinho na oficina, até o dia que o espaço físico se esgotou e na falta do que fazer com toda aquela montanha de lixo tóxico tive uma idéia totalmente louca de traçar os resíduos com cimento e areia, para fazer o contra piso da oficina. Como era uma casa de 2 andares, dias depois a vizinha de baixo veio nos presentear com um bolo, por termos eliminado o excessivo e inconveniente ruído proveniente da plaina e da lixadeira. Neste momento empiricamente percebi que este material possuía excelente propriedade de isolamento termo-acústico e aí comecei a realizar uns testes e entrou na jogada um amigo que estava construindo um estúdio de gravação e para fazer o isolamento do ambiente utilizamos mais uma vez os resíduos das pranchas e o resultado foi surpreendentemente muito positivo.
Com essas experiências ingressei na Clark Foam e iniciei um trabalho de desenvolvimento de produto, sob a supervisão do Eduardo Faggiano (Cocó) e em parceria com o Neco Carbone e lá produzi um protótipo de uma pranchinha usando resíduos de poliuretano, com resultados consideravelmente satisfatórios e assim sugeri que aprofundássemos as pesquisas, mas infelizmente a idéia não foi aprovada, apesar do apoio dos meus colegas e assim ficou congelada até a veiculação das reportagens já citadas. Na seqüência ingressei na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), para fazer mestrado na engenharia ambiental, porque senti uma forte necessidade de fundamentar cientificamente as idéias concebidas. Desde 1999 venho pesquisando a fundo, elaborando soluções para os problemas e articulando sócio-economicamente o projeto.
Os danos que esses resíduos podem causar à natureza são muitos e se eu for descrever todos, necessitaria de um livreto, mas é incontestável que sendo um lixo inflamável e tóxico ele não poderia ser descarregado pela coleta domiciliar e enterrado em aterros simples e lixões. Este procedimento equivocado gera impactos irreversíveis no solo e nos lençóis freáticos, fora a insalubridade no momento da produção, já que os ambientes internos não são herméticos, permitindo a migração de partículas para o meio externo e que a maioria dos trabalhadores não utilizam os equipamentos de proteção individual (EPI’s) adequados, apesar das características pérfuro-cortantes e carcinogênicas desses resíduos. Outro fator relevante é o fato de serem resíduos com baixa densidade, que ocupam muito espaço físico nos aterros, quando enterrados, na falta de oportunidade de recuperação dos dejetos, já que as tecnologias desenvolvidas pelo projeto Marbras Et Mundi ainda não foram implementadas (somente por falta de visão empresarial que não aloca investimentos para esta causa), um fabricante de pranchas responsável deveria no mínimo coletar e armazenar os resíduos com o maior cuidado possível e encaminhá-los para um aterro industrial, pois este está preparado para encapsular de forma ambientalmente correta estes rejeitos, sem prejuízo para os mananciais subterrâneos e para o solo, pois possui mantas de impermeabilização, sistema de captação e tratamento de gases e efluentes tóxicos, além de outros recursos de engenharia para prover o saneamento correto do lixo industrial perigoso gerado na produção de pranchas.
Essa realidade não se restringe somente ao Brasil, mas na França existe uma associação (Association Clean Shaper), que vem empregando recursos, tempo e energia para tentar reverter este quadro, o franco-brasileiro Alexandre de Sonis é um dos responsáveis e já trocamos bastantes figurinhas sobre este assunto, quando eles começaram as suas atividades em 2003. O projeto Marbras Et Mundi vem desde o ano de 1999 disseminando a sustentabilidade para estudantes, surfistas, fabricantes e pesquisadores do Brasil todo e de diversas regiões, como Argentina, Uruguai, México, Costa Rica, Estados Unidos, França, Espanha, Inglaterra e Austrália. Nossa preocupação não é monopolizar o conhecimento e sim estimular novas intervenções ao redor do planeta, para que esse problema seja eliminado, pois se a geração do lixo é um processo coletivo, sua solução não pode ser de outra forma. Nosso compromisso é sócio-ecológico, técnico-científico e não capitalista, não me incomodo se outras pessoas aplicarem o que desenvolvi ao longo desses anos, pelo contrário me felicitará e muito.
Os resíduos poderão ser recuperados sem prejudicar o meio ambiente através da metodologia do “berço ao berço”, que transformam os rejeitos industriais perigosos em matéria prima de segunda geração econômica, para compor um novo ciclo de produção. A criação de produtos provenientes do lixo poderá “fechar o circuito” da cadeia produtiva de uma empresa, pois além de minimizar ou eliminar impactos ambientais, possibilitará a redução dos custos de tratamento, minimizará o despejo de dejetos em aterros simples e oportunizará a geração e criação de novos postos de trabalho, conseqüentemente, trazendo mais divisas para a empresa, mais benefícios para o meio ambiente, para a saúde pública, sendo uma opção ética de comportamento empresarial.
No Brasil são produzidas anualmente cerca de 50.000 pranchas de surfe e de 50 a 70% do material consumido no processo produtivo é descartado. Este montante corresponde a um prejuízo financeiro superior a US$ 7.000.000 e mais de 380 toneladas de substâncias tóxicas e inflamáveis depostas nos "lixões", ou aterros simples, sem qualquer tratamento ambiental. A necessidade de se recuperar estes rejeitos gerou uma investigação científica, com o propósito de tornar a prancha de surfe um produto sustentável e ecologicamente responsável. O projeto consiste basicamente na sistematização de uma metodologia para minimizar o consumo de água, energia elétrica e a geração dos resíduos no processo fabril das pranchas de surfe, além de pesquisar e criar tecnologias para a sua recuperação. É possível utilizar estes resíduos na construção civil como substituto parcial de agregados, na fabricação de artefatos de concreto; incorporá-los com resinas, após pulverização dos rejeitos, na produção de uma blenda de poliuretano recuperado, que poderão ser empregados na produção de pranchas de surfe genéricas ou painéis de isolamento termo-acústico, utilizados em casas noturnas ou estúdios de gravação. Os produtos citados também podem ser produzidos através de termo-prensagem, onde os resíduos são aquecidos e prensados, sendo o processo mais clean, por não utilizar água ou qualquer tipo de insumo e demandar pouca energia. Também é possível incinerar os resíduos, com controle ambiental, para recuperar a sua energia, em função do alto poder calorífico, na produção de cimento, em Fornos de Clínquer.
Valorizar resíduos de materiais provenientes de recursos naturais não renováveis é um emergente desafio para a humanidade neste início de milênio, em função da escassez de áreas de aterros e a necessidade inadiável de preservação dos Ecossistemas, através da prática de uma ecoeficiência nos processos industriais.
Esta iniciativa inédita, ao nível mundial, visa promover um processo de educação ambiental e práticas ecológicas na indústria do surfe com o objetivo de transformar a prancha e seus processos produtivos, numa atividade sustentável e saudável, pois toda indústria que gera poluição ou toxicidade pode e deverá ser redimensionada, a fim de se evitar prejuízos à saúde pública e ao ambiente.
A idéia matriz é que as fábricas de pranchas de surfe se disponham a realizar em suas instalações, um processo de gestão ambiental, para poder obter uma certificação e um selo ecológico criando no mercado um produto diferenciado, com benefícios coletivos, espirituais, éticos, ambientais e sócio-econômicos.
Tive a oportunidade de realizar um estudo onde estimei que 107 toneladas (geração bruta de Florianópolis em 2001) de resíduos viabilizam a produção de 180 mil blocos de concreto, com uma lucratividade de aproximadamente 10%, sendo necessário confeccionar no mínimo 72 mil blocos para se atingir o ponto de equilíbrio, com uma rentabilidade de 18%. Economicamente estes números são excelentes e levando-se em conta, que as tecnologias já foram cientificamente validadas, a não implementação do projeto Marbras Et Mundi é um fenômeno cultural, pois infelizmente existe uma priorização dos investimentos aplicados no surfe em ações que envolvem a mídia, moda, campeonatos, equipes de surfe, festas, baladas, concursos de biquíni e muitas frivolidades.
Sinto que impera em nossa sociedade o que batizei de “Complexo de CTI” (atuar somente quando a situação se apresenta num estado terminal ou caótico), portanto a nossa comunidade, os fabricantes de pranchas e de blocos somente se lembrarão do projeto daquele maluco que tá em Floripa que sempre manteve uma atitude preventiva, quando acontecer um embargo, como ocorreu com a Clark Foam em 2005, aí será a fase de curar gangrena com Band aid.
Enfim, aprendi na vida que a humanidade só aprende na dor e infelizmente essas questões não fugirão à regra, quando acabar de fato (já está acabando) a água, quando abrir um vulcão sob nossos pés ou sermos atingidos pela grande onda que varrerá do mapa as cidades litorâneas, então a galera começará a se mobilizar, mas aí poderá ser tarde para mitigarmos os problemas ambientais...
Por outro lado aprendi uma coisa dentro do mar no momento de maior sufoco de minha vida como surfista, diante de uma bruta massa d'água, na iminência de me engolir e naquela normal hesitação de abandonar o barco ou encarar o perigo de frente me veio na mente uma frase que é a gasolina da minha vida... É melhor morrer tentando do que morrer chorando... Aí enterrei na água o bico da minha prancha tomei um caldo pavoroso, mas consegui passar aquele momento crítico, assim como venho enfrentando dia após dia as adversidades e percalços de tocar adiante um projeto inovador e arauto de um novo paradigma no surfe.
Geralmente a fabricação de pranchas é um processo industrial encarado de forma muito empírica, claro que existem algumas e poucas exceções. Apesar de estarmos em pleno século XXI, onde os sistemas industriais evoluíram de forma exponencial nas últimas décadas, o que constatamos é que a maioria das oficinas opera praticamente da mesma forma que quando surgiram há cerca de 40 anos atrás. Outros segmentos da indústria do surfe progrediram de forma espetacular, como a performance dos atletas, estruturas dos campeonatos, mídia, design das pranchas e assim investimentos da ordem de bilhões de dólares são injetados anualmente para suprir um mercado cada vez mais exigente e consumista e por outro lado nem um centavo é aplicado para tirar da idade pré-histórica a construção dos nossos brinquedinhos e muito menos de tornar os seus processos produtivos e o seu produto final sustentável e menos impactante.
É possível perceber o paradoxo vigente em nossa atividade, pois um esporte que depende integralmente da natureza deveria seguir um padrão mínimo de produção industrial ecologicamente responsável e um consumo consciente, que pudesse harmonizar as variáveis éticas, ambientais, sociais e econômicas. Por outro lado, o surfista e o empresário deste setor vêm sendo qualificados como cidadãos responsáveis sob o ponto de vista ambiental e que exercem a sua cidadania lutando pela defesa do ambiente costeiro em mutirões de recolhimento de lixo nas praias e participando de movimentos sociais de conservação ambiental frente à especulação imobiliária. Em tese, o segundo aspecto se sustenta: inúmeros abaixo assinados são criados e disseminados com a finalidade de controle na especulação imobiliária, porém no que tange ao aspecto da conservação ambiental, o assunto gera séria e questionável controvérsia. Como o surfista pode ser considerado ecológico se o seu equipamento básico, a prancha de surfe gera, quando fabricada, cerca de 5 kg de resíduos perigosos descartados no ambiente? Que atitudes são tomadas no contexto empresarial ou pessoal para reverter este quadro? Como são destinadas as pranchas obsoletas? Para ilustrar este questionamento, serve de exemplo a situação que estou vivenciando, que nos últimos 5 anos, retirei mais de trinta pranchas quebradas e abandonadas nas praias de Florianópolis, por outro lado, apesar da Clark Foam ter sido fechada, tanto da parte dos fabricantes de blocos, pranchas, de surfwear, empresários e cartolas, o assunto sustentabilidade em nossa atividade é considerado tabu, por incrível que pareça. Os surfistas têm boa percepção da sua função no processo de manutenção ecológica, porém a agressividade do modelo econômico, no culto ao consumo, sobrepõe ações inibidas e desconectadas dos indivíduos, de maneira geral. Para finalizar apresento aqui em primeira mão o resultado parcial mais significativo de uma pesquisa que realizei ano passado, onde foi questionado o porquê do surfista ser considerado um cidadão ecológico, e sem me causar surpresas 64% dos entrevistados responderam que é pelo fato do surfe ser praticado em um meio natural. Este dado reflete uma condição baseada em um modelo de representação que é gerado pela interação de um grupo social, mediante uma cognição concebida e disseminada pelos formadores de opinião, sendo que esta é aceita passivamente pelos atores envolvidos, sem maiores ponderações.
As metodologias desenvolvidas propiciam a construção de uma prancha de surfe genérica, com custos um pouco menos elevados e uma conformidade ideal para serem destinadas aos surfistas iniciantes, pois no produto reciclado, algumas propriedades físicas são alteradas, não sendo recomendadas para a utilização por surfistas que necessitam de alto desempenho em suas performances. Esta diferença poderá ser minimizada ou eliminada na continuidade das pesquisas.
Tanto as pranchas confeccionadas com resina de poliéster e poliuretano, como as produzidas com resina epóxi e poliestireno expandido, popularmente conhecido como isopor, necessitam de intervenção ao nível de gestão ambiental, pois se o poliuretano é mais impactante que o poliestireno, a resina epóxi é mais abrasiva e se utiliza da poliamida, como endurecedor, que é uma substância química muito nociva para a saúde pública, como para o ambiente.
Com o caos mundial pressionando o cognitivo da população, a tendência é que a fiscalização ambiental aperte o cerco com medidas coercitivas. Poderíamos adotar uma atitude preventiva e não ficar esperando que um organismo ambiental, siga o exemplo da EPA (referência mundial em fiscalização e controle ambiental), quando cerrou as portas da Clark Foam, na Califórnia e encerre as atividades de uma fábrica de blocos ou do fabricante das nossas “naves” prediletas. A poluição deste setor é muito séria e se não tomarmos uma decisão responsável, em um futuro próximo nossa indústria estará seriamente ameaçada.
Na minha jornada de pesquisador e ambientalista tive a oportunidade de presenciar em diversas ocasiões órgãos ambientais de diversos países do mundo, tomarem na seqüência atitudes idênticas às da EPA, assim esta ameaça é só uma questão de tempo e coloco a seguinte carta na mesa, se não adequarmos a produção das pranchas de surfe ou lançarmos alternativas mais sustentáveis, num período mínimo de 2 anos algum embargo acontecerá, como nossa atuação sempre foi preventiva, o mercado precisa tomar uma atitude e aproveitar que já existe uma solução prática e construída com bases científicas, portanto o melhor conselho que posso fornecer é que os empresários e autoridades do surfe brasileiro e mundial venham a pautar o mais rápido possível, em seus planejamentos, uma parceria com o projeto Marbras Et Mundi para que a sustentabilidade seja uma realidade e não mais uma Utopia Realizável...
É uma questão que extrapolou a condição antropológica, pois denota uma necessidade intrínseca e emergente de promovermos uma faxina em nosso Karma, pois se torna insustentável mantermos uma atividade esportiva, que depende exclusivamente da natureza precedida de enorme descarga poluente.
Paulo Eduardo Antunes Grijó – Coordenador do Projeto Marbras ET Mundi
paulosurfrecycle@yahoo.com.br